Contemplando a vida sem petróleo e gás

Até que ponto nós realmente “precisaremos” de combustíveis fósseis nos próximos anos?

À medida que a energia renovável fica mais barata e que máquinas e edifícios se tornam mais eficientes em termos energéticos, vários países estão reduzindo o uso de combustíveis fósseis. Os EUA, por outro lado, continuam sendo o segundo maior emissor de gases do efeito estufa, atrás da China.

Em 2011, 13 países obtinham mais de 30% da sua eletricidade de fontes renováveis, segundo a Agência Internacional de Energia. Muitos deles têm metas ainda mais ambiciosas.

Nos EUA, que obtiveram apenas 12,3% da sua eletricidade de fontes renováveis em 2011, um recente relatório do Conselho Nacional de Pesquisa concluiu que até 2030 o petróleo usado em carros e caminhões poderá ser reduzido à metade em comparação aos níveis de 2005, desde que haja melhoras na eficiência dos veículos a gasolina e um uso mais difundido de carros movidos a energias alternativas, como baterias elétricas e biocombustíveis.

Engenheiros da Universidade Stanford, na Califórnia, publicaram em março uma proposta mostrando como o Estado de Nova York poderia facilmente produzir, a partir de 2030, toda a sua eletricidade a partir do vento, do sol e da água. Haveria tanto potencial energético que as fontes renováveis poderiam também abastecer os carros do Estado.

“É absolutamente inverídico que precisemos de gás natural, carvão ou petróleo -achamos que isso é um mito”, disse Mark Jacobson, professor de engenharia civil e ambiental e principal autor do estudo.

“Do ponto de vista técnico e econômico, você poderia abastecer os EUA com energias renováveis. Os maiores obstáculos são sociais e políticos -o que é necessário é a vontade de fazer isso.”

Dos países que mais usam a eletricidade renovável, alguns, como a Noruega, dependem daquela velha energia renovável, a hidrelétrica. Mas outros, como Dinamarca, Portugal e Alemanha, já criaram incentivos financeiros para promover tecnologias mais novas, como a solar e a eólica.

O Canadá produziu, em 2011, 63,4% da sua eletricidade de fontes renováveis -em grande parte a hidrelétrica, mas também um pouco da eólica.

Mas Fatih Birol, economista-chefe da Agência Internacional de Energia, disse que, embora reduzir o uso de combustíveis fósseis seja crucial para conter a elevação das temperaturas globais, melhorar a eficiência energética de lares, veículos e indústrias seria uma estratégia mais fácil em curto prazo.

Ele alertou que uma expansão rápida da energia renovável pode ser complicada e custosa. Seu uso em grandes quantidades geralmente exige modificações nas redes elétricas nacionais. Além disso, a energia renovável ainda é, em geral, mais cara que os combustíveis fósseis.

Aliás, muitos países europeus que se destacam na adoção de energias renováveis têm poucos combustíveis fósseis de produção própria, então seus custos elétricos já eram elevados. Outros possuem fortes movimentos ambientalistas que tornaram politicamente aceitável a elevação de custos.

Mas Birol previu que o preço da energia eólica vai continuar caindo, ao passo que o preço do gás natural deve subir nos próximos anos. Ele observou, também, que os países podem com frequência obter 25% da sua eletricidade de fontes renováveis sem fazer grandes modificações nas suas redes.

Quando digo a colegas que Portugal atualmente obtém 40% da sua eletricidade de fontes renováveis, a resposta padrão é: “Venta muito em Portugal”. Mas em muitos lugares nos EUA e em outros países também venta.

Quando voltei de Kristianstad, na Suécia, e falei deslumbrada sobre como essa cidade usa os resíduos de fazendas, florestas e fábricas alimentícias para produzir o biogás responsável por 100% da sua calefação, a reação foi também de incredulidade.

Mas eu me atreveria a dizer que um plano similar funcionaria bem em Milwaukee (no Wisconsin) ou Burlington (em Vermont), cidades que também ancoram áreas rurais.

Mas até a Europa está tendo um pouco de dificuldades com suas ambições renováveis. A Alemanha, que obteve 20,7% da sua eletricidade de fontes renováveis em 2011, está reavaliando os incentivos que oferece com vistas a alcançar 35% até 2020, devido a preocupações com o encarecimento da energia numa época de incerteza econômica. O país tem tido problemas para aumentar sua capacidade de transmissão e dar conta de levar a energia eólica gerada no tempestuoso norte para o industrial sul.

Birol disse que o gás natural e a energia renovável podem acabar formando “um belo casal”. Mas em que proporção? Se, dentro de 20 anos, os carros forem 50% mais eficientes e grande parte da nossa eletricidade for eólica e solar, deveríamos ser mais comedidos em fazer investimentos em combustíveis fósseis?

Vale a pena ponderar até que ponto realmente “precisamos” de combustíveis fósseis.

Fonte Diário Jurídico | Folha de S. Paulo

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