Entre o êxodo diário e o progresso espectacular

A data ficou inscrita no livro de honra da cidade: a 5 de Dezembro de 1996, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) atribuía ao centro histórico do Porto o título de património mundial. Quinze anos depois, há quem aponte progressos, quem saliente o despovoamento em curso da zona e quem aponte o papel do turismo na valorização do casco velho.

Jardim Moreira, presidente da recém-criada Associação Infante D. Henrique –Associação para o Desenvolvimento do Centro Histórico do Porto (ADCH), critica as intervenções públicas feitas na zona nas últimas décadas, por não terem evitado o “êxodo diário” de população.

O padre trabalha no centro histórico “há 42 anos” e, desde então, viu “20 mil habitantes” saírem da zona. E os que ficam são “maioritariamente idosos e pessoas sem grande qualificação”.

Os Censos 2011 confirmam uma quebra de quase 30% na população das 4 freguesias do casco velho na última década.

“É um desastre, é rara a semana em que não morre uma ou duas pessoas, mais as que saem. Há diariamente um êxodo”, sustenta Jardim Moreira.

“Tragédia oculta”

Também para Hélder Pacheco, a perda de habitantes é o “calcanhar de Aquiles” do “progresso espectacular” que aquela zona está a viver (ganhou “valor cultural, turístico e económico”).

Quinze anos depois da classificação como Património da Humanidade, o Porto ganhou prestígio, turismo e potencial, mas o centro histórico perdeu identidade, avisa o especialista na história do Porto, que lamenta a “tragédia oculta que é o despovoamento” daquela zona.

Jardim Moreira deixa reparos às sucessivas gestões da autarquia, incluindo a actual, e à Porto Vivo – Sociedade de Reabilitação Urbana. ”A própria câmara não tem nenhuma política ou estratégia para a população do centro histórico. A única estratégia [que tem] é possibilitar o êxodo para bairros camarários”, defendeu. “As pessoas valem mais do que as pedras e os monumentos”.

Este sábado, numa conferência evocativa da efeméride, Olga Maia, representante da autarquia, realçou que o Porto é das poucas cidades do mundo que tem um “plano de gestão do centro histórico aprovado pela Unesco”.

“Muito por fazer”

Rui Loza, actual director regional do Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU) e representante do instituto na Porto Vivo, era, em 1996, responsável pelo Comissariado para a Renovação Urbana da Área de Ribeira/Barredo (CRUARB).

O CRUARB foi instalado em 1975 e Rui Loza chegou lá em 1990, com a reabilitação já “em curso”, factor também essencial para a Unesco “reconhecer o valor” da zona. Extinto em 2003, o CRUARB reabilitou “600 fogos, sobretudo na Ribeira, Barredo e Miragaia”.

Para Loza, o que mudou nos últimos 15 anos foi “a visibilidade externa” da cidade, o “aumento do respeito do centro histórico a nível nacional” e a “projecção” em termos turísticos.

Admite que ainda “há muito por fazer”, porque a área em causa “é muito grande”, mas destaca as várias operações em curso a cargo da SRU e um “esforço estratégico de planeamento”.

Fonte Porto24

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