Construção: os excessos e o futuro

A crise do sector da construção não se resolve com a exigência de mais obras e, muito menos, com levantamentos.

As atuais queixas dos construtores não resultam senão da “aterragem dura” de um sector sobredimensionado e mal habituado. Os grandes ajustamentos em curso eram previsíveis – e, até, desejáveis – face aos excessos da construção nova em Portugal nas duas últimas décadas, quer de edifícios quer de infraestruturas.

A construção tem, na generalidade dos países, um enorme peso na economia, movimentando apreciáveis volumes de recursos financeiros. Por exemplo, em 2011, o valor bruto da produção para os 19 países do Euroconstruct ultrapassou o bilião de euros, dos quais mais de metade correspondem a intervenções de renovação.

Em Portugal, a construção tem sido, até recentemente, um sector com um peso na economia mais importante do que a média europeia, mobilizando vastos recursos financeiros (em 2010 o valor bruto da produção era, ainda, de mais de 22 mil milhões). Ocupa também um elevado volume de recursos humanos (antes da presente crise, empregava cerca de 600 mil pessoas, sendo o segundo maior empregador a seguir ao Estado), mas com qualificações muito baixas: dois terços não têm mais do que e a antiga 4.ª classe. Apresenta uma produtividade baixíssima (cerca de um terço da das suas congéneres europeias) e caracteriza-se pelo reduzido peso da reabilitação no volume total de produção (apenas 24%, contra uma média de 53%, no conjunto dos países do Euroconstruct).

Nas últimas décadas, a construção em Portugal tem sido manifestamente excessiva. Entre 1991 e 2011, foram construídos mais de 80 mil alojamentos por ano, o que corresponde a construir uma cidade maior do que Coimbra, por ano, durante 20 anos.

No que concerne às infraestruturas, houve também grandes exageros: em autoestradas, Portugal está hoje bem acima da média da União Europeia.

Os excessos da construção resultam, em grande parte, da prevalência dos interesses corporativos sobre os interesses do País e da grande influência do lóbi do imobiliário e da construção sobre os decisores políticos.

É necessário que o enfoque do sector passe da construção nova para a reabilitação, que é, com frequência, mais complexa do que a construção corrente e exige minúcia, rigor e uma maior qualificação das empresas e dos profissionais.

À deficiente qualificação dos agentes têm-se somado critérios inadequados de seleção das empresas e de gestão das obras. Não admira, portanto, que estas intervenções se tenham, com frequência, revelado desastrosas em termos de eficácia e de durabilidade.

É por isso necessário adotar critérios específicos de seleção das empresas e dos profissionais, distintos dos da construção corrente.

O sector da construção precisa de reduzir em quantidade e aumentar em qualidade. Isso significa menos empresas, mas melhores empresas. As mais qualificadas, em termos de organização e de tecnologia, são mais estáveis, podem pagar melhores salários e estão em melhor posição para prestar serviços além- -fronteiras, contribuindo para que o sector da construção seja um sector exportador.

Por Vítor Cóias | Presidente da Direção do Gecorpa – Grémio do Património

Fonte DN

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